Thomas Gray: «O verdadeiro desafio da canábis na Europa é o talento»
2 min de leitura

Considera que o principal desafio que a canábis medicinal enfrenta hoje está relacionado com a perceção pública, com a regulamentação ou com a falta de talento no setor?
A regulamentação avança quando a indústria é credível. Os reguladores não acordam um dia e decidem que ficaram «brandos» com a canábis — respondem a empresas bem geridas, conformes e com base clínica, que consigam demonstrar segurança do doente, normas de qualidade, farmacovigilância e governação. Se os operadores não forem operacionalmente estanques, a conversa fica presa no modo de cautela. Se forem, os reguladores podem envolver-se a sério, porque o perfil de risco torna-se gerível.
A perceção pública segue o sucesso operacional. No Reino Unido, a perceção continua a ser fortemente moldada por um estigma herdado e por títulos sensacionalistas. A forma mais rápida de a mudar não é uma campanha de marketing — é uma excelência consistente e «aborrecida»: prescrição segura, resultados claros, forte liderança clínica, cadeias de abastecimento robustas e menos erros evitáveis. Quando os doentes têm acesso fiável e bons cuidados, e quando as empresas se comportam como verdadeiras organizações de saúde, constrói-se confiança. A confiança melhora a perceção. A melhoria da perceção reduz o risco político. E o ciclo continua.
Até o trabalho de «regulamentação e perceção» é, em última análise, uma questão de talento. Os organismos de lobbying, as associações setoriais e os grupos de doentes não ganham gritando mais alto — ganham pondo as pessoas certas na sala: pessoas que compreendem as políticas, que sabem falar a linguagem do regulador, que têm as redes certas e que conseguem construir coligações. Se houver operadores experientes e defensores credíveis, é possível orientar o panorama regulamentar. Sem eles, limitamo-nos a reagir.
É também por isso que esta regra geral se aplica em toda a Europa, embora cada mercado se encontre numa fase diferente. Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Portugal… as estruturas regulamentares e os níveis de maturidade variam, mas a mesma fórmula tende a manter-se:
Bom talento → boas empresas → boas normas do setor → melhor perceção → melhores resultados regulamentares.
Se tivesse de resumir de forma direta: o talento é o cavalo que puxa a carroça. A regulamentação e a perceção pública importam enormemente, mas a forma mais rápida de influenciar ambas é elevar a qualidade das pessoas que constroem e representam o setor.