Guillermo Moreno, Diretor Científico da Khiron Europe.
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O que diferencia os medicamentos à base de canábis de outros medicamentos?
Os medicamentos à base de canábis têm despertado um interesse crescente devido às suas propriedades farmacológicas únicas. Mas o que distingue verdadeiramente estes medicamentos dos restantes? A planta de canábis contém muitas moléculas ativas, algumas das quais comuns a outras espécies vegetais, como os terpenos ou os flavonoides. No entanto, o notável perfil farmacológico da canábis assenta principalmente no seu principal composto ativo, o delta-9-tetra-hidrocanabinol, ou THC. O THC é uma molécula única na natureza, pois consegue ligar-se a proteínas presentes nas nossas células, desencadeando uma resposta fisiológica característica. Estas proteínas, denominadas recetores canabinoides de tipo 1 (CB1), pertencem a uma família conhecida como «recetores acoplados à proteína G» ou GPCR, que desempenham um papel crucial na comunicação celular e têm sido amplamente estudados para o desenvolvimento de fármacos. Curiosamente, o CB1 é o GPCR mais abundante no cérebro humano, o que sublinha a importância da sua atividade!
A descoberta da estrutura do THC na década de 1960 deu início a uma campanha de química medicinal para obter fármacos com efeitos semelhantes. Na década de 1990, foram identificadas moléculas semelhantes ao THC mas mais seletivas e potentes, e foi descoberto o sistema endocanabinoide (SEC). O SEC está presente em vários órgãos e tecidos, incluindo os sistemas nervoso, vascular, musculoesquelético e digestivo, entre outros. A sua função geral é manter a homeostase, ou seja, ajudar o organismo a adaptar-se e a dar uma resposta satisfatória às alterações do meio.
O enorme potencial do desenho racional de fármacos dirigidos ao SEC contrasta fortemente com o fracasso de várias estratégias seguidas até agora para o desenvolvimento clínico de fármacos canabinoides. O THC continua a ser o único agonista (uma molécula capaz de ativar diretamente um recetor) do CB1 que pode ser prescrito por um médico em diversos formatos: Marinol®, Syndros®, Sativex® ou produtos de canábis medicinal. Alternativas como a nabilona (Cesamet®) não alcançaram ampla aceitação na comunidade médica, e compostos como o ácido ajulémico não concluíram o seu desenvolvimento clínico. Estratégias alternativas, como os inibidores da recaptação ou da degradação dos endocanabinoides, geraram um interesse significativo na indústria farmacêutica para o desenvolvimento de fármacos na primeira década do século. No entanto, devido a vários fracassos em ensaios clínicos, a investigação sobre canabinoides para o tratamento clínico da dor foi em grande parte abandonada.
Neste cenário, os medicamentos à base de canábis são a única ferramenta farmacêutica de que os clínicos dispõem atualmente para aproveitar o sistema endocanabinoide (SEC) com fins terapêuticos. A evidência do mundo real recolhida em vários países com programas de acesso a estas especialidades farmacêuticas sugere que a sua utilização está associada a uma melhoria robusta no tratamento de populações com doenças crónicas. Os doentes referem uma redução dos sintomas associada a uma melhoria da qualidade de vida, da arquitetura do sono, do descanso e do humor, sem o aparecimento de efeitos secundários graves. Em suma, os medicamentos à base de canábis representam uma ferramenta importante para o tratamento de doenças crónicas, mas ainda são necessários mais estudos para compreender plenamente os seus efeitos a longo prazo e a relação custo-benefício no sistema de saúde.