Francisco Javier Ciriza, CEO e cofundador da Quorum Biomedical
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Que técnicas biotecnológicas inovadoras estão a ser utilizadas na planta Cannabis sativa para potenciar as suas propriedades medicinais?
O uso medicinal da planta Cannabis sativa (C. sativa) remonta a milhares de anos. A aplicação da canábis medicinal pode observar-se em antigos códices chineses (2727 a.C.). O seu uso médico-terapêutico encontra-se também nas etapas milenares das culturas indiana, persa e romana, entre outras, nas quais a canábis era utilizada para aliviar diversas doenças, como a gota, o reumatismo, a síndrome pré-menstrual e infeções como a malária.
No vibrante campo da investigação biomédica, a evolução das técnicas biotecnológicas está a transformar a forma como compreendemos e utilizamos esta planta, empregue com fins medicinais há tantos anos. No âmbito destas investigações, podemos observar avanços a vários níveis, como a descoberta de novos alvos terapêuticos para as moléculas produzidas pela planta, melhoramentos genéticos da C. sativa e até inovações nas técnicas de cultivo.
No que respeita aos avanços na utilização de técnicas biotecnológicas aplicadas à planta de canábis, importa destacar o uso do sistema CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou repetições palindrómicas curtas agrupadas e regularmente espaçadas), uma técnica genética que permite modificar o genoma de organismos vivos. Graças a ela, é possível introduzir melhoramentos no genoma vegetal da C. sativa, bem como eliminar fatores sem interesse terapêutico. Desta forma, podem obter-se plantas com maior resistência a doenças, alterações na arquitetura da planta ou variações nos níveis de moléculas farmacologicamente relevantes, como os canabinoides, os terpenos e os flavonoides. Esta tecnologia avança constantemente, não só na C. sativa mas numa grande variedade de plantas, descobrindo-se novas aplicações quase diariamente.
Por outro lado, registaram-se uma série de avanços fundamentais na cultura de tecidos e na posterior regeneração. Este é um passo fundamental para a engenharia genética da planta C. sativa, pois é uma fase crítica para estabelecer um sistema transgénico eficiente e consolidado. Concretamente, esta variedade vegetal é uma das mais recalcitrantes à transformação genética e à regeneração. Os avanços na cultura de tecidos permitem gerar linhas estáveis de plantas transformadas com as modificações genéticas desejadas, reprogramando as células somáticas da planta em meristemas, responsáveis pelo crescimento vegetal.
Esta investigação baseada na biotecnologia pode fornecer novas ferramentas à biomedicina na sua busca de terapias para as diversas doenças que a humanidade enfrenta, doenças que continuam a surgir devido às mudanças constantes em fatores como a longevidade.
No entanto, importa mencionar o abrandamento de todos estes avanços devido à falta de um sistema devidamente regulamentado, tanto para a investigação em canábis como para o uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Estes têm sido censurados, sobretudo pela imprensa e por entidades que, sem conhecimento sobre o assunto, geraram uma perceção negativa deste importante avanço biotecnológico. O progresso na investigação biotecnológica é necessário para estudar a fundo a C. sativa, da qual apenas conhecemos a superfície e os compostos básicos (como o CBDA e o THCA) presentes em grandes quantidades. No entanto, esta planta encerra muito mais do que isso; devemos ter claro que é uma fábrica de moléculas de elevado interesse terapêutico, que devemos aproveitar ao máximo.